Dieta cetogênica e epilepsia

A dieta cetogênica é um tratamento não farmacológico prescrito especialmente para crianças, sendo indicado na maioria dos centros especializados para pacientes que não apresentam resposta a, pelo menos, dois medicamentos antiepilépticos de primeira linha.

Começou a ser utilizada no início do século XX, sendo apresentada pela primeira vez à comunidade científica em 1921, pela Mayo Clinic e, posteriormente, foi divulgada e implementada pelo Hospital Johns Hopkins nos Estados Unidos. Esta terapia obteve popularidade no tratamento de crianças e adultos epiléticos, já que à época, a terapêutica medicamentosa era escassa e praticamente limitada ao fenobarbital.

Inúmeros trabalhos demonstram os benefícios da dieta cetogênica, com redução de mais de 50% das crises epiléticas, algo clinicamente relevante. Além disso, também pode levar à redução importante do uso de drogas anticonvulsivantes.

Trata-se de uma dieta rica em gorduras, teor protéico moderado e com baixo teor de carboidratos, sendo a gordura a fonte primária de energia.

Na evidência de resultados positivos, o tempo médio de tratamento com a dieta cetogênica é de 2 anos, geralmente sendo descontinuada após esse período. Os riscos e benefícios precisam ser avaliados este tratamento for mantido por período maior.

Os pais são orientados a permanecerem com a dieta por no mínimo 6 meses. Caso as crises não reduzam após esse período, a dieta será retirada gradativamente.

O método tradicional para o início da dieta cetogênica envolve a hospitalização do paciente, com jejum prévio de 12 a 48 horas, devido à possibilidade de ocorrência de efeitos adversos. Entretanto, vários centros especializados têm proposto o início da dieta de forma ambulatorial e sem jejum.

Ambulatorialmente, a dieta é iniciada na proporção 2:1 (2 partes de gordura para 1 parte de carboidrato e proteína somados), evoluindo de forma gradual com acréscimo de gordura para as proporções 3:1 e 4:1. A maioria das crianças e adolescentes apresenta melhor controle das crises na proporção 4:1.

A monitorização dos corpos cetônicos no sangue ou urina é essencial para decisão do aumento da quantidade de gordura da dieta. Geralmente, orienta-se a medição diária (existem fitas específicas para essa medida).

Apesar de a dieta cetogênica ser utilizada no tratamento da epilepsia há décadas, o mecanismo do efeito anti-epilético ainda não é totalmente conhecido. Algumas hipóteses têm sido colocadas, tais como: alterações no pH cerebral e de neurotransmissores; mudanças no metabolismo energético relacionadas, em parte, com a produção e metabolismo dos corpos cetônicos.

O uso de medicamentos ou suplementos que contenham sacarose, frutose, lactose e glicose deve ser evitado durante o tratamento, devido à interferência na formação dos corpos cetônicos e possível redução do controle das crises. Além disso, não é permitido o consumo de guloseimas, bebidas açucaradas ou outros alimentos que contenham açúcar na composição.

Para fazer o cálculo da dieta, o nutricionista avalia o paciente e define o valor calórico e a composição das refeições. Geralmente são definidas 4 refeições por dia, com a mesma proporção de calorias, proteínas, gordura e carboidratos.

A dieta é composta por frutas, verduras, legumes, carnes, ovos, creme de leite, maionese, cream cheese, azeite e óleos. Todos os alimentos devem ser pesados crus, exceto o ovo. Em substituição ao açúcar, é recomendado o uso de adoçantes. Também é importante manter um intervalo mínimo de 4 horas entre essas refeições.

Geralmente, a orientação é de 2 refeições com verduras, carne e creme de leite ou maionese, e outras 2 com frutas, ovo e creme de leite.

O nutricionista elabora, também, uma lista de substituição, sempre levando em consideração as proporções de carboidrato, proteína e gorduras especialmente definidas para aquele paciente.

É importante o acompanhamento com uma equipe multidisciplinar (pelo menos neurologista e nutricionista), pois é necessário um controle rigoroso na introdução e durante a manutenção da dieta.

Maysa Marques Marçal
Nutricionista da Apae-BH – CRN 15824

Referências bibliográficas:

SILVA, Ana Paula Alves da; NASCIMENTO, Andréa Gislene do; ZAMBERLAN, Patrícia. Manual de Dietas e Condutas Nutricionais em Pediatria. São Paulo: Editora Atheneu, 2014.

LIMA, Patrícia Azevedo de. Impacto da dieta cetogênica nas características oxidativas, físicas e lipídicas de lipoproteínas de crianças e adolescentes com epilepsia refratária. 2014. 176f. Dissertação (Mestrado) – Universidade de São Paulo, São Paulo.

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