A Psicologia no programa Casa Lar

A Psicologia no programa Casa Lar

A Psicologia no programa Casa Lar assume um papel extremamente importante, especialmente em função do perfil dos usuários atendidos – pessoas com funcionamento intelectual significativamente inferior à média e com limitações nos comportamentos adaptativos.

No entanto, a deficiência intelectual interfere na capacidade que os usuários apresentam para compreender o ambiente e reagir a ele de maneira adequada. A melhora no desempenho do usuário quanto a vida social e comunitária, por exemplo, depende de apoios individualmente planejados.

Além de considerar as limitações advindas da própria deficiência intelectual, também é indispensável considerar a história de vida dos usuários, o que facilita ainda mais a compreensão acerca da importância da psicologia para a melhoria do bem-estar emocional de cada um dos usuários, para o favorecimento do desenvolvimento pessoal e da inclusão social, bem como o desenvolvimento da autodeterminação como, por exemplo, o poder de tomada de decisão pelo próprio usuário.

Atualmente são 52 usuários, sendo a maioria, proveniente da extinta Fundação Estadual do Bem-estar do Menor, popularmente conhecida como FEBEM. Os jornais daquela época, revelaram as condições subumanas nas quais viviam os internos da FEBEM.  Em 1995 o sociólogo fluminense Caio Ferraz visitou a Fundação e revelou a um dos jornais que a unidade visitada seria “um necrotério de pessoas vivas” e ainda “… um campo de concentração deve ser um pouco melhor que aquilo”. De acordo com a descrição do sociólogo, haviam pessoas amarradas aos leitos, mulheres e homens nus, pessoas comendo lixo e sujas de fezes. Uma denúncia feita pela coordenadoria de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura de Belo Horizonte, revelou que os internos da extinta FEBEM, sofriam, além de abandono e falta de tratamento especializado, agressões, maus tratos e viviam trancados em celas. Alguns internos eram amarrados às próprias roupas ou em camisas de força para que não comessem as próprias fezes.

Quando a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais APAE-BH assumiu os cuidados desses usuários, assumiu-se um modelo de acolhimento o mais próximo da realidade de um lar, ou seja, os usuários passaram a viver em casas (9) localizadas na comunidade, em diferentes bairros, sendo na média de 7 usuários por casa, cuidados diretamente por mães e pais sociais e seus auxiliares.

Essa transição marcou o início de uma nova vida. Os usuário passaram a ser tratados com respeito, carinho, amor e compreensão. Na perspectiva de um ambiente familiar, os apoios passaram a ser individualizados, os profissionais receberam e ainda recebem capacitações e treinamentos para o aperfeiçoamento no atendimento da pessoa com deficiência intelectual, adequado as suas necessidades peculiares.

Na direção de diminuir as desvantagens para o funcionamento desses usuários em sociedade, desvantagens potencializadas pelas limitações da condição de deficiência intelectual e também por uma história de vida marcada por práticas coercitivas e principalmente punitivas, a psicologia assume o seu papel de relevância!

No cotidiano das casas lares, a psicologia comportamental é posta em prática, dado que essa abordagem, tem se mostrado efetiva no cumprimento dos objetivos na promoção da qualidade de vida para a pessoa com deficiência intelectual, com transtorno “mental” e também nos casos de transtorno do espectro do autismo.

A Análise do Comportamento, embasada nos princípios filosóficos que sustenta tal prática científica, tem assumido papel de protagonismo no atendimento desses usuários, visto que ela possibilita entender porque uma pessoa se comporta de uma dada maneira e então, propor as intervenções adequadas a cada caso.

Por exemplo, os motivos de um usuário se comportar agressivamente são possíveis de ser entendidos quando olhamos para a situação que antecedeu a emissão do comportamento agressivo, ou seja, o que pode ter desencadeado tal comportamento e quando olhamos para a situação consequente a emissão do comportamento agressivo, ou seja, quais consequências esse comportamento produziu no ambiente. Deste modo, entendendo a relação existente entre o comportamento apresentado e as consequências produzidas, por exemplo, é possível identificar o que o mantém ocorrendo.

As análises funcionais podem sugerir que um mesmo comportamento, o de agressividade, por exemplo, pode possuir diversos motivos para a sua ocorrência, as vezes como forma do usuário evitar que alguém tente controlar o seu comportamento, outras vezes como forma de chamar a atenção das pessoas a sua volta ou até mesmo para evitar realizar uma atividade/tarefa que lhe foi solicitada.

Já houve situações em que um usuário, diagnosticado com autismo, não falante, apresentava um comportamento de autoagressão (ele dava tapas em seu próprio rosto) como forma de se comunicar, tanto para pedir atenção quanto para não realizar uma ação/atividade.

Do mesmo modo que a Análise do Comportamento possibilita identificar os motivos da ocorrência de um dado comportamento, ela também possibilita intervir de modo a alterar tal comportamento, como, por exemplo, enfraquecê-lo se o mesmo for prejudicial para a pessoa ou fortalece-lo se este for um comportamento adequado e principalmente socialmente desejável.

No exemplo citado acima, intervenções comportamentais favoreceram os meios de ensinar outros comportamentos para que o usuário se comunicasse como, por exemplo, dar um leve toque no braço da pessoa próxima para interromper a atividade/tarefa que estava sendo solicitada, não sendo necessário o usuário dar tapas em seu próprio rosto.

Vários comportamentos foram e são trabalhados por essa abordagem com os usuários do Programa Casa Lar, sempre levando em consideração as necessidades e condições de cada um. A alguns, foi ensinado e fortalecido o comportamento de utilizar adequadamente o sanitário, a outros foi ensinado habilidades relacionadas a alimentação como, por exemplo, sentar à mesa, usar os talheres e mastigar adequadamente o alimento, sem derramar a comida sobre a mesa e também no chão. Foram também trabalhados os comportamentos desejáveis para uma comunicação verbal/vocal adequada como, por exemplo, saber ouvir, falar pausadamente e com atenção no interlocutor, sequência lógica do conteúdo verbalizado, etc.

Do mesmo modo, também foi e ainda é trabalhado o autocontrole e a diminuição da impulsividade, o controle da raiva e a redução das respostas de irritabilidade, a expressão adequada dos sentimentos e das emoções, a cooperação durante as atividades da vida diária e em situação de interação com demais usuários e funcionários (as) do Programa.

Esses são alguns exemplos dentre os vários comportamentos que foram e são trabalhados com os 52 usuários acolhidos pela APAE-BH. É notável a mudança positiva no repertório comportamental dos usuários se comparado ao repertório inicial dos mesmos, ou seja, se comparado ao período que intervenções comportamentais ainda não eram empregadas. Para alcançar tais resultados, o acompanhamento foi e ainda têm sido sistemático!

Em uma das casas, os usuários mais comprometidos, apresentavam comportamentos agressivos em alta frequência. Estes agrediam uns aos outros e também aos funcionários, além de quebrar a própria casa.

Após um trabalho intenso, com a adoção de várias estratégias comportamentais e principalmente com o uso de reforço positivo para os comportamentos adequados – toda vez que os usuários apresentavam algum comportamento bom, por mais simples que fosse, recebiam maior atenção dos funcionários, eram elogiados e até mesmo tinham acesso a coisas/objetos do próprio interesse deles – os usuários passaram a emitir comportamentos socialmente desejáveis em maior frequência e a diminuir a frequência de comportamentos agressivos.

Após anos de trabalho com a ciência do comportamento nessa casa lar, os usuários passaram a apresentar, em maior frequência, comportamentos de carinho uns para com os outros e também com os funcionários. Aprenderam a cuidar da casa e não mais atacam a sua estrutura física.  Sabem sentar à mesa e alimentar adequadamente sem um roubar o pedaço de carne do outro. Aprenderam a utilizar adequadamente o sanitário, não urinando mais no terreiro. Hoje é agradável permanecer por algum tempo visitando essa casa. Não se sente mais medo de entrar nesse ambiente e a única certeza que se tem é que, ao entrar nessa casa, certamente acontecerá um abraço!

 

Jeyverson Ferreira Mendes

Psicólogo, especialista em Terapia Analítico-comportamental e pesquisador em Psicologia Experimental: Análise do Comportamento.

 

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