OS EFEITOS DA PROMOÇÃO DA QUALIDADE DE VIDA PARA O PROCESSO DE ENVELHECIMENTO SAUDÁVEL DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA INTELECTUAL MORADORAS DAS CASAS LARES

Todos sabem que o envelhecimento é um processo natural do desenvolvimento humano. Contudo, essa etapa traz aspectos singulares que devem ser observados em relação ao contexto social, conforme destacado por Silva e Silva (2016): “[…] por mais que o ato de envelhecer seja individual, o ser humano vive na esfera coletiva e como tal, sofre influências da sociedade”. (SILVA E SILVA, 2016, p. 03). Essa noção endossa a necessidade de entendermos o sujeito de modo mais amplo, isto é, do ponto de vista biopsicossocial. Essa definição bem mais abrangente vai desde aspectos intersubjetivos referentes à percepção do indivíduo sobre o próprio envelhecimento, tais como as questões relacionadas à autoimagem, até o reconhecimento da identidade pessoal e social.

Na atualidade têm se tornado frequentes, pautas de discussões que tratam da implementação de novas estratégias de promoção da qualidade de vida das pessoas em idade mais avançada. De acordo com dados do último censo, publicado em 2017 pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), foi possível identificar um expressivo aumento da longevidade da população americana, que pode ser atribuída tanto a fatores socioeconômicos quanto aos avanços da farmacologia e da biomedicina. Conforme a definição da Organização Mundial da Saúde, o conceito de saúde não deve ser mais considerado apenas como ausência de doenças, mas sim, como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social.” (OPAS/OMS, 2016). Assim, os fatores determinantes da saúde devem ser entendidos como um campo polissêmico em que aspectos psicológicos, biológicos e sociais se intercomunicam e devem ser considerados em toda e qualquer análise.

No ano de 2008, pesquisadores do projeto Epidoso, do Centro de Estudos do Envelhecimento (CEE), da Escola Paulista de Medicina, da Universidade Federal de São Paulo (EPM – UNIFESP), identificaram que as pessoas com DI possuíam uma forma de envelhecimento precoce quando comparadas às amostras de pessoas não DI. Conforme aponta Novell et al (2008), citado por Guilhoto et al (2014): “o envelhecimento precoce das pessoas com DI de grau leve a moderado é resultado da falta de programas de promoção da saúde e assistência social. (NOVELL et al, 2008 apud Guilhoto et al 2014, p. 06).

Em que pese a escassez de pesquisas especializadas que abordem o tema do envelhecimento da pessoa com DI, alguns autores têm chamado a atenção para a discrepância existente entre a idade cronológica e a idade mental como fatores preditos e de grande relevância para se começar a pensar em intervenções na busca da promoção da qualidade de vida dessas pessoas. A discussão desse tema é bastante pertinente e atual, uma vez que ainda vivemos em uma sociedade cujos modos de existências e os papeis sociais ainda são predominantemente pautados em critérios etários, ou seja, na idade biológica. Por isso, a construção da identidade da pessoa com DI é um ponto tão importante e que deve ser pensada para além do diagnóstico, pois não se deve reduzir a capacidade dos indivíduos a estigmas previamente estabelecidos.

Do mesmo modo, outro grande desafio encontrado e que deve ser enfrentado na busca da construção da identidade social e subjetiva da pessoa com DI refere-se ao cuidado para não produzir a infantilização desses sujeitos. Isso ocorre, na maioria das vezes, pela falta de conhecimento da sociedade de maneira geral sobre o que é a DI, apesar do Censo de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), demonstrar que quase 3% da população idosa brasileira seja formada por pessoas com DI. (IBGE, 2010). Não obstante, isso reforça a necessidade de investimento em pesquisas consistentes na área e denota, ainda, a importância de uma maior sensibilização e conscientização da sociedade civil e do poder público em prol dos direitos da pessoa com DI. A não observância desses aspectos pode trazer distorções da percepção da pessoa com DI sobre a velhice, o que também dificulta a preparação para um envelhecimento saudável.

Pensando nisso, o serviço Casa Lar, da APAE- BH, busca criar estratégias preventivas para minorar os impactos do envelhecimento nos moradores, por meio da promoção e incentivo a modos de vida mais saudáveis, com a participação ativa dos indivíduos na construção da sua autonomia, protagonismo e processo decisório.

 

REFERÊNCIAS

  • GUILHOTO, Laura. LEONDARIDES, Maria Regina. CASTRO, Leila. SENA, Simone et al. Envelhecimento e Deficiência Intelectual na Grande São Paulo., in: Revista Deficiência Intelectual, ano 5, nº 7 de 2014. São Paulo –SP. Disponível em: https://apaebrasil.org.br/uploads/5386-artigo_envelhecimento.pdf. Acesso em: 31/05/2019.
  • INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo 2010. Brasília. Disponível em: sidra.ibge.gov.br/tabela/5645#resultado. Acesso em: 31/05/2019.
  • LUCKASSON, R.; BORTHWICK-DUFFY, S.; BUNTINX, W. H. H.; COULTER, D. L.; CRAIG, E. M.; REEVE, A.; SNELL, M. E. et al. Mental Retardation – definition, classification, and systems of support. Washington, DC: American Association on Mental Retardation. 2002.
  • NOVELL, R. et al. SENECA: envejecimiento y discapacidad intellectual en Cataluña 2000–2008. Informe ejecutivo. Cataluña: Federación Catalana Pro-personas con Discapacidad Intelectual, 2008
  • ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DE SAÚDE. Expectativa de vida aumenta para 75 anos nas Américas. Brasília, DF, Brasil 26 de jan. 2017. Disponível em: www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5504:expectativa-de-vida-aumenta-para-75-anos-nas-americas&Itemid=875. Acesso em: 31/05/2019.
  • ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DE SAÚDE. OPAS/OMS apoia governos no objetivo de fortalecer e promover a saúde mental da população. Brasília, DF, Brasil 10 de out. 2016. Disponível em: www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5263:opas-oms-apoia-governos-no-objetivo-de-fortalecer-e-promover-a-saude-mental-da-populacao&Itemid=839. Acesso em: 31/05/2019.
  • PORTELA, Marilene. COLUSSI, Eliane. GIRARDI, Mirtha. Percepções de envelhecimento e velhice entre adultos com Deficiência Intelectual, in: Revista Deficiência Intelectual, ano 5, nº 9, jul/dez de 2015. São Paulo –SP. Disponível em: www.apaesp.org.br/pt-br/sobre-deficiencia-intelectual/publicacoes/PublishingImages/revista-di/artigos_pdf/DI_N9.pdf. Acesso em: 31/05/2019.
  • SILVA. Alice. SILVA. O processo de envelhecimento em pessoas com deficiência Intelectual. In: Os desafios da escola pública paranaense na perspectiva do professor PDE. V. 1. Paraná, 2016. Disponível em: www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/cadernospde/pdebusca/producoes_pde/2016/2016_artigo_edespecial_uem_alicealvesdesouzasilva.pdf. Acesso em: 31/05/2019.

Douglas Felipe Murta Marques – Psicólogo do serviço Casa Lar, da APAEBH, psicoterapeuta, especialista em avaliação e diagnóstico psicológico pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.